

Folha Negra Universo
Por J.V Sales
I
A primeira coisa que Elias percebeu foi que o cheiro de ferro não vinha do sangue. Vinha das palavras.
O templo não era feito de pedra, nem de madeira — era feito de gente. Corpos imóveis, costurados uns aos outros, formando paredes pulsantes. Cada respiração coletiva fazia o lugar inflar e contrair como um pulmão ancestral.
— Você chegou no meio da leitura — disse a mulher.
Ela estava de pé no altar, embora “altar” fosse apenas um amontoado de carne reorganizada em forma de púlpito. Sua pele era aberta em padrões geométricos, como páginas dobradas. Cada dobra revelava músculo vivo… e algo escrito.
Não tinta?
Não corte?
Algo entre ambos.
— Isso é… — Elias tentou falar, mas a garganta falhou.
— Texto, o corpo é o texto. Sempre foi. Vocês só demoraram para aprender a ler.— ela respondeu, com um sorriso calmo.
Ao redor, os fiéis murmuravam. Não com a boca, mas com o próprio corpo. Nervos vibravam, músculos contraíam em sequências rítmicas. Era linguagem e oração. Elias tentou recuar, mas o chão agarrou seus pés. Não com força, mas com pertencimento.
— Não lute — disse a mulher. — Você já começou a entender.
Ela desceu do altar. Cada passo deixava impressões que não eram pegadas, mas cicatrizes temporárias no chão vivo.
— Chamamos isso de Liturgia. Não é fé. Não é crença. É prática.
Ela tocou o peito dele e depois Elias gritou. Não de dor, mas de leitura. Imagens explodiram em sua mente: memórias que não eram suas, corpos sendo abertos com precisão ritual, órgãos reorganizados como frases, ossos reposicionados como pontuação.
— Cada emoção é um verbo — continuou ela. — Cada trauma, um parágrafo. Cada transformação… uma nova edição.
— Isso é uma doença — ele conseguiu dizer.
Ela inclinou a cabeça.
— Não. Doença é repetição sem propósito. Nós editamos.
Um dos fiéis se desprendeu da parede. Caminhou até eles com dificuldade, como se ainda estivesse aprendendo a ser indivíduo.
Seu rosto não tinha olhos — apenas cavidades profundas onde algo se movia.
— Ele foi um erro, ele leu sem ainda compreender. — Disse a figura para a mulher.
— E o que acontece com quem não entende? — Elias perguntou.
A mulher sorriu.
— Eles viram rascunho.
O fiel caiu de joelhos. Seu corpo começou a se reescrever. Ossos se deslocaram, músculos se reorganizaram. Em segundos, ele deixou de parecer humano, deixou de parecer qualquer coisa.
Elias tentou fugir.
Mas algo dentro dele já estava lendo. Ele olhou para suas mãos… e viu... Linhas, não de pele, mas de significado.
E pela primeira vez, ele entendeu o horror real: Ele não estava sendo transformado.
Ele estava sendo escrito.

