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O Último Vigia da Arkarus LOGO-Photoroom.png

Folha Negra Universo

Por Carlos "Shark" Santos

I

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A chuva caía pesada sobre os telhados enferrujados da instalação de Arkarus. Os corredores, antes iluminados por lâmpadas brancas e vozes humanas, haviam se transformado em túneis escuros preenchidos apenas pelo eco distante de algo que não deveria existir. No setor de contenção, um único homem ainda permanecia vivo: Elias Ferraz. Ele não era cientista, soldado ou pesquisador. Era apenas um vigilante comum que aceitara trabalhar na instalação para oferecer uma vida melhor à esposa e à filha, Helena. Durante anos, caminhou pelos corredores sem questionar o que acontecia atrás das portas blindadas. Sabia apenas que algumas coisas permaneciam presas por um motivo. Então veio a Noite da Ruptura. Alarmes soaram por toda a instalação. As luzes ficaram vermelhas. As contenções falharam. Enquanto funcionários e pesquisadores corriam desesperados para os elevadores de evacuação, Elias tentou alcançar a saída, mas uma transmissão interrompeu sua fuga: o setor residencial dos funcionários havia sido comprometido. Sua esposa e sua filha estavam lá. Sem hesitar, ele correu na direção oposta à multidão, atravessando corredores em colapso e áreas tomadas pelo caos. Quando finalmente chegou ao setor familiar, encontrou apenas silêncio. As paredes estavam marcadas por sangue, as portas haviam sido arrancadas e brinquedos estavam espalhados pelo chão. No quarto de Helena restava apenas um velho ursinho de pano. Nenhum corpo. Nenhuma resposta. Nenhum sinal de vida.

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Nos meses seguintes, Elias recusou-se a abandonar Arkarus. Sobreviveu com rações vencidas, água reciclada e uma esperança que se tornava mais frágil a cada dia. Enquanto a instalação mergulhava na loucura, ele percorria corredores distorcidos, salas impossíveis e setores que pareciam mudar de lugar durante a noite. Foi nesse período que começou a ouvir uma voz infantil chamando por ele na escuridão. A primeira vez acreditou ser fruto do cansaço. Na segunda, decidiu seguir o som. Na terceira, encontrou pequenas pegadas marcadas na poeira. A partir daquele momento, convenceu-se de que Helena ainda estava viva e que precisava apenas encontrá-la. A busca consumiu completamente sua sanidade. Criaturas surgiam nas sombras observando seus passos. As paredes pareciam respirar. Algumas salas desapareciam e retornavam dias depois. Ainda assim, Elias continuava avançando, guiado pela voz da filha. Até que, certa noite, encontrou uma menina parada no centro de um corredor abandonado. Ela usava o mesmo vestido azul da última vez que a vira. Por um instante, o mundo parou. Elias caiu de joelhos, incapaz de conter as lágrimas. Finalmente a encontrara. Mas havia algo profundamente errado. Os olhos da menina eram negros como um abismo sem fundo. Sua pele era fria e imóvel, e quando falou, sua voz pareceu vir de dezenas de bocas diferentes ao mesmo tempo. Ao seu redor, o corredor começou a se deformar. As paredes pulsavam como carne viva, raízes escuras surgiam do chão e as luzes piscavam em um ritmo doentio. Naquele instante, Elias compreendeu a verdade que tentara negar por tanto tempo. Aquilo não era Helena. Talvez a verdadeira Helena tivesse morrido na primeira noite do desastre. A criatura diante dele apenas usava sua aparência, suas memórias e sua dor para atraí-lo.

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Com as mãos tremendo, Elias ergueu a arma. A criatura continuava sorrindo. Sua voz infantil ecoou pelo corredor quando perguntou se ele também a abandonaria. O disparo que se seguiu atravessou toda a instalação como um trovão. A criatura caiu. Elias também. Porque, naquele momento, destruiu a última coisa que ainda lhe dava forças para continuar vivendo. Mesmo sendo uma mentira, mesmo sendo um monstro, era a última vez que veria o rosto de sua filha.

 

Anos depois, equipes de exploração encontraram seu corpo em um corredor esquecido de Arkarus. Elias estava sentado contra uma parede, segurando o velho ursinho de pano encontrado no quarto de Helena. Ao seu lado havia uma mensagem escrita em tinta vermelha: "Se alguém encontrar Helena, digam que eu procurei por ela até o fim." Desde então, exploradores relatam ouvir passos de uma criança caminhando pelos corredores abandonados da instalação. E, em algumas noites, uma voz masculina e cansada parece responder das profundezas da escuridão: "Helena?... É você?".

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