

Folha Negra Universo
Por Carlos "Shark" Santos
Relatório Encontrado no Caderno de Campo de Rafael Moura
Data desconhecida. Última página recuperada nas proximidades de Vale Fundo.
Se alguém estiver lendo isso, significa que eu provavelmente não consegui voltar.
Meu nome é Rafael Moura, integrante da equipe de investigação enviada para Vale Fundo após os desaparecimentos registrados nos últimos meses. Oficialmente, fomos enviados para coletar amostras de água e avaliar os impactos ambientais causados pelas antigas operações de mineração da região. Extraoficialmente, todos sabíamos que havia algo mais acontecendo ali.
Quando chegamos, a cidade já parecia morta. As ruas estavam vazias, as janelas fechadas e o rio que cortava o vale carregava uma substância negra e espessa que refletia o céu como um espelho de petróleo. O cheiro era impossível de descrever. Não era apenas produto químico ou matéria orgânica em decomposição. Era algo mais antigo, mais profundo. Algo que parecia vivo.
Os moradores restantes se recusavam a falar sobre a floresta ao norte da mina abandonada. Sempre que mencionávamos as árvores, seus rostos mudavam. Alguns faziam o sinal da cruz. Outros simplesmente iam embora. Um velho pescador foi o único que nos respondeu. Ele nos disse que a floresta estava "crescendo para baixo". Na época, achei que fosse apenas a fala confusa de um homem traumatizado.
Hoje entendo exatamente o que ele quis dizer.
Seguimos o curso do rio contaminado até encontrarmos a origem. A água escura saía de enormes rachaduras abertas sob as raízes de uma árvore colossal que dominava toda a encosta. Nenhuma fotografia poderia transmitir seu tamanho. Seu tronco era tão largo quanto um prédio, e seus galhos desapareciam entre as nuvens carregadas. Mas não era uma árvore comum.
As raízes não penetravam o solo.
Elas emergiam dele.
Como se alguma coisa gigantesca estivesse enterrada sob a montanha e estivesse lentamente tentando sair.
Foi Lucas quem encontrou os primeiros corpos. Ou o que restava deles. Rostos humanos surgiam presos ao tronco, deformados pela madeira. Alguns ainda mantinham expressões de puro terror. Outros pareciam adormecidos. Quando aproximamos as lanternas, juraria que vi um dos olhos se mover.
Ninguém quis permanecer ali.
Mas então ouvimos os sussurros.
Eles vinham de todos os lados.
Centenas de vozes misturadas ao som da chuva.
Primeiro pensei que fosse o vento atravessando os galhos. Depois comecei a reconhecer palavras. Nomes. Datas. Fragmentos de conversas. Vozes de pessoas desaparecidas há décadas. Vozes que não deveriam existir.
A árvore estava falando.
Ou talvez estivesse lembrando.
Nossas análises mostraram algo impossível. A substância negra presente na água continha traços de metais pesados, fungos mutantes e estruturas biológicas desconhecidas. Era como se décadas de resíduos tóxicos tivessem se fundido com alguma forma de vida subterrânea. A poluição não havia apenas contaminado a floresta.
Ela havia alimentado algo.
Algo que estava crescendo.
Naquela noite, Miguel desapareceu.
Encontramos sua mochila às margens do rio. Apenas a mochila. Nenhum sinal de luta. Nenhuma pegada. Nenhum rastro.
Na manhã seguinte vimos um novo rosto surgindo entre as raízes da árvore.
Era ele.
Ainda estava vivo.
Seus olhos se moveram quando nos aproximamos.
Nunca esquecerei aquilo.
Lucas entrou em pânico e tentou incendiar o tronco usando combustível do jipe. As chamas subiram por alguns segundos, mas logo foram engolidas pela seiva negra que escorria da casca. Então a árvore reagiu.
O chão inteiro tremeu.
Raízes romperam a terra como serpentes gigantes. Casas abandonadas afundaram. A torre da igreja desabou. O rio começou a transbordar uma lama escura cheia de peixes deformados e animais mortos.
Foi então que a vimos por completo.
A árvore não era uma árvore.
Era um organismo.
Uma única criatura colossal formada por madeira, fungos, carne e resíduos tóxicos acumulados durante gerações. Alimentava-se da contaminação despejada pelas minas e, em troca, crescia cada vez mais. Os desaparecidos não eram devorados.
Eram absorvidos.
Tornavam-se parte dela.
Parte de sua memória.
Parte de seu corpo.
Lucas correu.
As raízes o alcançaram antes que ele chegasse ao veículo.
Eu ouvi seus gritos por vários minutos.
Depois ouvi sua voz misturada aos sussurros.
Agora estou sozinho.
Consigo vê-la da janela do prédio abandonado onde me escondo. Ela ocupa quase todo o horizonte. Seus galhos bloqueiam a luz da lua, e algo escorre deles continuamente, como lágrimas negras caindo sobre a cidade.
As vozes estão ficando mais fortes.
Elas sabem meu nome.
Sabem tudo sobre mim.
Sabem onde estou.
A chuva começou novamente. Consigo ouvir raízes se arrastando pelas ruas lá fora.
Se alguém encontrar este relato, não venha para Vale Fundo.
Não tente investigar.
Não tente destruir a criatura.
Porque a verdade é muito pior do que imaginamos.
A árvore não está crescendo.
Ela está acordando.
E o pior de tudo...
A última análise que consegui concluir mostrou que os esporos presentes na água já chegaram aos rios das cidades vizinhas.
Vale Fundo nunca foi o foco da infecção.
Foi apenas a primeira raiz.

